Osteoporose, pode ser diagnosticada com o auxílio da Odontologia




A osteoporose é uma enfermidade crônica, multifatorial, relacionada ao envelhecimento. Segundo a Fundação Internacional de Osteoporose (IOF), é um distúrbio osteometabólico caracterizado pela perda de massa óssea e desarranjo de sua microarquitetura, elevando a fragilidade esquelética e o risco de fraturas. A maior parte das fraturas resultantes de osteoporose produz mudanças esqueléticas tais como deformações, diminuição de estatura, invalidez e até a morte. As regiões que apresentam uma prevalência maior de fraturas, nestes casos, são as vértebras, o fêmur e o antebraço.


Os ossos são órgãos que sofrem renovação constante. A saúde do esqueleto depende da destruição das células velhas e de sua substituição por outras mais jovens. No tecido ósseo, esse processo decorre da ação antagônica de dois tipos de células: os osteoclastos e os osteoblastos. Os primeiros são responsáveis pela corrosão dos ossos. Os segundos, por sua reconstrução. No ser humano, até os 30 anos, quando o desenvolvimento ósseo atinge o seu ápice, os osteoblastos são mais ativos do que os osteoclastos. A partir desta idade, a tendência é a de que o ritmo de destruição óssea supere o de regeneração. Depois dos 45 anos, o esqueleto tende a ficar 5% mais fraco a cada ano.


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Radiografia de paciente com dentição normal


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Radiografia de paciente com osteoporose


A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera a osteoporose como um problema de saúde pública. Dados fornecidos pelo Ministério da Saúde revelam que só no ano de 2004 foram gastos com fraturas de quadril por osteoporose a quantia de 28 milhões de reais. De acordo com a IOF, cerca de 75 milhões de pessoas têm osteoporose na Europa, EUA e Japão. No Brasil, estima-se que haja cerca de 15 milhões de pessoas com osteoporose, marca acentuada pelo aumento da expectativa de vida do brasileiro. Pesquisas revelam que 40% das mulheres do mundo correm o risco de ter uma fratura em razão da doença, pois a velocidade de perda de massa óssea nas mulheres é diferente da dos homens, principalmente após a menopausa. Os principais fatores de risco da doença são: ser do sexo feminino, ter mais de 65 anos, ter histórico familiar, ser de etnia asiática, ter níveis hormonais inadequados, ter uma dieta pobre em cálcio e vitamina D, ser sedentário, consumir álcool, ser fumante, fazer uso de alguns medicamentos e estar com doenças ósseo metabólicas.

A prevenção da osteoporose pode ser iniciada na juventude. Para isso, existem algumas medidas que devem ser adotadas e consistem, basicamente, no fornecimento de cálcio nas quantidades que os ossos necessitam diariamente. O cálcio é o principal constituinte dos ossos. Por isso, a importância desse mineral para a saúde óssea. Tomar leite é essencial para os ossos. Além do cálcio, existem outras fontes de vitaminas importantes para a prevenção da osteoporose como, por exemplo, vitamina D, que pode ser obtida por exposição moderada ao sol e ingestão de alimentos ricos nesta vitamina, como peixe e ovos, por exemplo. É importante também fazer exercícios físicos com regularidade e abandonar o uso em excesso de tabaco e de álcool.

Existem alguns exames eficazes no diagnóstico da osteoporose como, por exemplo, exame de sangue, urina e raios-X. Mas, o método mais indicado é a densitometria óssea que pode ser realizada a partir dos 45 anos. Através dela, é possível detectar a baixa densidade óssea antes da fratura ocorrer, determinar a taxa de perda de osso e, ainda, avaliar os efeitos do tratamento.

A osteoporose pode afetar a densidade mineral óssea de diversas partes do corpo, inclusive a dos ossos maxilares. Por isso, o Cirurgião-Dentista, profissional responsável pela saúde oral, deve prestar muita atenção em qualquer sinal aparente. A Cirurgiã-Dentista, Cássia Tiemi Fukuda, está desenvolvendo uma pesquisa que avalia a relação entre a osteoporose e a Odontologia. Resultados preliminares revelam que radiografias panorâmicas podem auxiliar no diagnóstico da doença, quando corretamente avaliadas por um Cirurgião-Dentista. Com o objetivo de ter um maior esclarecimento sobre esse assunto, o APCD Jornal entrevistou Cássia Tiemi Fukuda, especialista em periodontia, mestre pela Universidade de São Paulo e professora da Escola de Aperfeiçoamento Profissional da APCD Regional Campinas.

APCD Jornal - Como surgiu a idéia desse estudo?
Cássia Tiemi Fukuda
 - A idéia surgiu em conjunto com a colega de mestrado, Valéria Gondim, após freqüentarmos um crédito intitulado "Osteoporose", ministrado pela professora associada Emiko Arita (Disciplina de Radiologia – FOUSP). Em 2006, a equipe coordenada pelo professor Giuseppe A. Romito (Disciplina de Periodontia – FOUSP) finalizava o delineamento de um estudo com mulheres menopausadas. Informalmente, chamamos de Projeto 'Periomulher'. O objetivo seria avaliar essas mulheres sob a ótica da Odontologia (periodontia, radiologia, semiologia) bem como abordar fatores demográficos e comportamentais.

APCD Jornal - Qual a relação entre a Odontologia e a osteoporose?
Cássia Tiemi Fukuda
 - Atualmente, as publicações correlacionam a osteoporose, principalmente, com a implantodontia (osso osteoporótico x implantes), periodontia (perda de inserção clínica x osteoporose), semiologia e radiologia (meio auxiliar de diagnóstico). Entretanto, há necessidade de estudos longitudinais criteriosos (amostras representativas, critérios de diagnóstico validados) bem como metanálises para esclarecer e estabelecer a real inter-relação quanto ao binômio "Odontologia – osteoporose".

APCD Jornal - Como se chegou a esse resultado de que por meio da radiografia panorâmica é possível ser diagnosticada a osteoporose? Dê exemplos práticos.
Cássia Tiemi Fukuda
 - O exame padrão-ouro para o diagnóstico da osteoporose é a densitometria óssea (DXA). A radiografia panorâmica não a substitui. A DXA é o melhor método para se medir a 'densidade mineral óssea' e comparar com padrões por idade e sexo. É indispensável para o diagnóstico seguro e tratamento da osteoporose e de outras doenças que possam atingir os ossos.

As radiografias panorâmicas têm sido utilizadas como meio auxiliar ao diagnóstico da osteoporose. Há parâmetros radiográficos validados, tais como a morfologia da cortical mandibular e a espessura da cortical mandibular, que são categorizados para denunciar a presença ou ausência da doença. A morfologia pode ser avaliada diretamente no negatoscópio, enquanto para a espessura, utiliza-se um paquímetro digital ou software para a mensuração precisa em milímetros.

APCD Jornal - Como estão, agora, as pesquisas? Quais os próximos passos?
Cássia Tiemi Fukuda
 - Ultimamente, a literatura tem abordado este tópico com artigos que comparam parâmetros radiográficos (morfologia e/ou espessura da cortical mandibular, número de pixel, análise fractal e outros) com a densitometria óssea (DXA). Averigua-se qual é a especificidade, sensibilidade e acurácia daquele parâmetro radiográfico quando comparado com a DXA, ou seja, quão fiel ele pode ser no diagnóstico da osteoporose.

Os principais pesquisadores dessa linha de pesquisa são Taguchi (Japão) e Devlin (Inglaterra). Não obstante, brasileiros (FORP-USP, UnB, UNESP) e, mais recentemente, o nosso grupo, realizaram análises de outros fatores radiográficos na tentativa de estabelecer a correlação positiva com a densitometria óssea.

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1. O osso normal é forte e flexível
2. O osso osteoporótico é mais poroso, mais fraco e sujeito à fratura

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Gerações da mesma família 
ilustram como a osteoporose pode 
lentamente resultar em fraturas 
ósseas, alterações na postura e 
perda gradual da estatura

É de extrema importância e valia a continuidade desses estudos devido à carência de pesquisas brasileiras com amostras maiores. Além disso, o PNECDOR - Plano Nacional de Educação e Controle das Doenças Reumáticas - (1995) desenvolveu um estudo multicêntrico e verificou graus diferentes de alterações na estrutura óssea no país. As amostras populacionais das cinco macrorregiões geográficas estudadas apresentaram a osteoporose como condição freqüente mesmo nas regiões de maior insolação e miscigenação étnica com o negro e o índio. Tais resultados passam a requerer outros estudos epidemiológicos envolvendo mais detalhadamente os diferentes fatores de risco regionais.

APCD Jornal - Quais foram os principais resultados dessa pesquisa? Como os dados e resultados até agora obtidos poderão ter impacto no futuro?
Cássia Tiemi Fukuda
 - A pesquisa ainda não está concluída. Resultados preliminares indicam que a "morfologia da cortical mandibular" apresenta melhor acurácia do que espessura no diagnóstico da osteoporose. Vale ressaltar que estes resultados são frutos de uma pesquisa que envolveu um desenho de estudo delineado, método validado e, acima de tudo, orientação, treinamento e calibração com um radiologista com experiência na área.

O maior impacto futuro é a crescente importância da ação coletiva de diferentes áreas da saúde. As radiografias panorâmicas, quando corretamente avaliadas, poderão ser um método auxiliar no diagnóstico da osteoporose. Em outubro deste ano, no II Congresso Brasileiro de Densitometria, Osteoporose e Osteometabolismo (BRADOO), foi explicitada a importância do diagnóstico precoce. É uma doença insidiosa cujos sintomas podem passar despercebidos durante muitos anos. Isso explica porque muitos casos são diagnosticados em fase já avançada da doença. As complicações decorrentes da doença (dor na coluna vertebral, limitação de movimentos, diminuição da reserva respiratória, cifose) podem ser evitados ou minimizados com o diagnóstico precoce. Provavelmente, um Cirurgião-Dentista capacitado (visto que a possibilidade de se realizar uma radiografia panorâmica é maior e o custo é muito menor do que uma DXA) poderá não diagnosticar, mais sim alertar o paciente sobre a possibilidade da doença e encaminhá-lo a um profissional médico para a realização de exames específicos e tratamento adequado. Logo, o Cirurgião-Dentista pode agir como um agente na prevenção e/ou diagnóstico precoce da osteoporose.

APCD Jornal - Na sua opinião, esse estudo é mais um exemplo da importância da multidisciplinaridade profissional no tratamento de doenças? Comente a interação entre Odontologia e Medicina.
Cássia Tiemi Fukuda
 - Certamente. Devemos avaliar o paciente sob todos os aspectos de sua saúde. Deve haver conhecimento da 'mão-dupla' entre a Medicina e a Odontologia, ou seja, a patologia oral influenciando a saúde geral e, por outro lado, a condição sistêmica influenciando a saúde oral.

Por exemplo, na periodontia, os tecidos periodontais inflamados são um reservatório de bactérias que podem interagir com outros sistemas do organismo, contribuindo, assim, para a etiopatogenia de outras condições sistêmicas, tais como parto prematuro e nascimento de bebês de baixo peso, diabetes, doenças pulmonares, doenças cardiovasculares. Em contrapartida, condições sistêmicas e hábitos (fumo, estresse, entre outros) podem ter influência na saúde periodontal.

Portanto, o desenvolvimento de ações conjuntas na área de saúde é essencial. No âmbito das pesquisas, esta interação é visível. Por exemplo: o projeto Periomulher é uma aliança entre a Faculdade de Odontologia e a Faculdade de Medicina (Disciplina de Reumatologia - Profa. Dra. Rosa M.R. Pereira) da USP.

APCD Jornal - Comente um pouco sobre essa doença que acomete grande parte da população idosa, hoje, no mundo.
Cássia Tiemi Fukuda
 - A queda da mortalidade seguida pela redução da fecundidade e aumento da expectativa de vida (72,7 anos para o brasileiro, em 2008) resultam no envelhecimento da população e no aumento das doenças crônico-degenerativas, entre as quais a osteoporose. A osteoporose pode comprometer a independência funcional e a qualidade de vida. Cerca de 66% das fraturas de fêmur evoluem sem comprometimento da independência do paciente. Porém, do grupo restante, cerca de 23% (decorridos o primeiro ano pós-fratura) tendem a ter complicações que os confine ao leito ou à cadeira de rodas.

Por Bruna Oliveira
Colaboração Mariana Pantano



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